Tesla aposta em software para travões mais seguros
A Tesla está a testar uma nova funcionalidade de software que limita temporariamente a velocidade máxima do veículo quando o sistema de travagem se aproxima de temperaturas críticas, numa tentativa de evitar o sobreaquecimento dos travões.
A estratégia revela uma mudança clara na filosofia de engenharia da Tesla. Em vez de apostar apenas em melhorias mecânicas, a marca recorre cada vez mais ao software para monitorizar o estado dos componentes e intervir antes que surjam problemas graves.
Neste caso, o objetivo é simples: reduzir o risco de fading dos travões em condições de condução exigentes.
Por que razão os elétricos castigam tanto os travões?
Os veículos elétricos são, regra geral, bastante mais pesados do que os equivalentes a combustão, devido ao peso das baterias. A travagem regenerativa costuma aliviar o esforço dos travões convencionais, mas há situações em que o sistema é levado ao limite.
A velocidades elevadas ou em travagens repetidas — como em descidas de montanha ou em pista — os componentes dos travões acumulam calor mais depressa do que conseguem dissipá-lo.
Se a temperatura sobe demasiado, surgem vários problemas: o fluido de travões pode começar a ferver, reduzindo a pressão hidráulica, e o material das pastilhas perde eficácia, levando ao temido fading. Como a energia cinética aumenta com o quadrado da velocidade, baixar a velocidade é a forma mais eficaz de controlar o calor.
Algoritmo dinâmico em vez de limitador fixo
A solução da Tesla não passa por um simples limite de velocidade. O sistema recorre a um algoritmo dinâmico que avalia continuamente o estado térmico dos travões.
Com base em modelos internos, o software estima a temperatura dos travões tendo em conta a força de travagem, frequência de utilização e condições externas como a temperatura ambiente. Se detetar que os componentes estão a aproximar-se de um limite crítico, o condutor recebe um aviso no ecrã central.
Se a temperatura continuar a subir, o veículo pode limitar temporariamente a velocidade máxima — potencialmente para valores entre 110 e 130 km/h — até que os travões arrefeçam o suficiente.
Resposta a críticas antigas
O desempenho dos travões da Tesla já foi alvo de críticas, sobretudo em utilização intensiva. Versões de alta performance como o Model S Plaid impressionam na aceleração, mas nem sempre conseguem manter a travagem em pista durante longos períodos.
A marca oferece travões em carbono-cerâmica como opção para condutores mais exigentes, mas a maioria dos carros sai de fábrica com discos de aço convencionais.
Do ponto de vista da engenharia, a intervenção por software é muito mais barata do que redesenhar o hardware dos travões com discos maiores, condutas de arrefecimento ou materiais mais caros.
Para quem é pensado este sistema?
A funcionalidade destina-se sobretudo a situações em que a temperatura dos travões pode subir rapidamente. Condução em montanha, especialmente em longas descidas onde a travagem regenerativa pode ser limitada se a bateria estiver cheia, é um exemplo típico.
Condutores que levam o carro para a pista também podem beneficiar, já que as travagens fortes e repetidas levam rapidamente os componentes além do seu conforto térmico.
Frotas e serviços de car sharing são outro alvo óbvio. Prevenir danos nos travões via software pode reduzir custos de manutenção e diminuir o risco de acidentes.
No fundo, esta funcionalidade antecipa o futuro da indústria: à medida que os carros se tornam cada vez mais definidos por software, espera-se que não só conduzam sozinhos, mas também monitorizem a sua própria saúde mecânica e intervenham antes que algo corra mal.