Afeela 1
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Honda desligou a ficha ao Afeela antes de chegar ao mercado

Autor auto.pub | Publicado em: 26.03.2026

A Sony Honda Mobility cancelou o projeto Afeela no momento em que este devia passar da apresentação cuidada para as vendas reais, retirando a base técnica e industrial de que o Afeela 1 dependia.

A Sony Honda Mobility anunciou a 25 de março que iria descontinuar tanto o Afeela 1 como um segundo modelo ainda em desenvolvimento. Fê-lo apesar de as reservas na Califórnia já estarem abertas mediante um depósito reembolsável de 200 dólares, cerca de 173 euros à taxa de referência do Banco Central Europeu de 25 de março. E apesar de o site oficial do Afeela continuar a indicar um preço base de 89.900 dólares, cerca de 77.600 euros, além de até 300 milhas de autonomia EPA e 40 sensores. Já não se tratava de um concept car distante, com boa iluminação e promessas ambiciosas. Era um produto próximo do mercado, com preço, proposta e posicionamento já definidos.

O detalhe mais revelador está no calendário. A 16 de março, a Sony Honda Mobility inaugurou o seu AFEELA Studio & Delivery Hub em Torrance e continuava a falar em entregas. Nove dias depois, a mesma empresa anunciou o fim do programa. Uma inversão deste tipo sugere que o projeto não caiu por terra porque o design falhou o alvo ou porque o marketing não resultou. Foi antes o recuo da Honda que lhe retirou o chão.

A causa real está na própria declaração da Honda, de 12 de março. A empresa disse que iria cancelar três modelos elétricos previstos para produção na América do Norte, no âmbito de uma reavaliação mais ampla da sua estratégia de eletrificação, e avisou que o impacto financeiro poderia chegar aos 2,5 biliões de ienes. A Reuters noticiou depois que este recuo mais vasto da Honda deixou a joint venture sem os ativos e as tecnologias de que precisava para levar o Afeela em frente. Quando a empresa-mãe trava a esta escala, o resto do programa passa inevitavelmente a parecer alarmantemente teórico.

A Sony Honda Mobility admitiu, em grande medida, precisamente isso. No aviso de cancelamento, a empresa afirmou que a revisão estratégica da Honda significava que já não podia usar certas tecnologias e ativos que faziam parte do plano de negócio original. Essa é a frase-chave de todo o caso. A Sony trouxe a ambição de software, o ecossistema multimédia e a grande ideia de um automóvel mais orientado para o entretenimento. À Honda cabia fornecer a espinha dorsal industrial. Quando esse apoio desapareceu, o Afeela perdeu qualquer via credível para a produção. Isto parece menos um fracasso de marketing do que um fracasso industrial.

O colapso do Afeela deixa uma lição dura para a indústria. Os compradores viam uma berlina de luxo carregada de ecrãs, a promessa de um infotainment com sabor PlayStation e a suposta sinergia de duas gigantes japonesas. Por baixo de tudo isso estava uma premissa frágil: a de que a Honda levaria até ao fim o seu plano norte-americano para veículos elétricos. No momento em que essa premissa desapareceu, o Afeela 1 deixou de parecer o elétrico de luxo de amanhã e passou a parecer um slide de apresentação muito caro. A Sony Honda Mobility vai reembolsar os detentores de reservas e diz que continuará a discutir o seu futuro com a Sony e a Honda, mas o Afeela, enquanto marca, perdeu a única coisa que um recém-chegado dificilmente se pode dar ao luxo de perder, credibilidade mesmo antes do lançamento.