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Bolha dos elétricos rebenta e custa caro à indústria

Autor auto.pub | Publicado em: 13.02.2026

Os maiores fabricantes automóveis do mundo apostaram forte numa transição rápida para veículos elétricos. Agora, estão a rever estratégias à pressa, depois de perdas que, só nos Estados Unidos, rondam os 50 mil milhões de dólares (cerca de 46 mil milhões de euros), enquanto gigantes europeus como a Volkswagen e a Mercedes-Benz enfrentam uma procura em queda e concorrência feroz da China.

Nos Estados Unidos, o rombo financeiro aproxima-se dos 50 mil milhões de dólares, cerca de 46 mil milhões de euros. Na Europa, pesos pesados como a Volkswagen e a Mercedes-Benz tentam sobreviver à quebra da procura e à pressão implacável dos construtores chineses.

Durante grande parte da última década, a indústria moveu-se sob o lema da eletrificação. Subsídios estatais, regras ambientais cada vez mais apertadas e a ascensão meteórica da Tesla criaram a ilusão de que o motor de combustão estava condenado a desaparecer mais depressa do que se previa.

Mas entre 2024 e 2025, o otimismo deu lugar a uma realidade bem mais dura. O interesse dos consumidores arrefeceu. A infraestrutura de carregamento ficou aquém das promessas. O entusiasmo inicial cedeu perante preocupações práticas: autonomia, valor de revenda e custos de propriedade a longo prazo.

Estados Unidos: prejuízos de milhares de milhões

Segundo dados recentes do setor, os fabricantes americanos, liderados pela Ford e pela General Motors, ajustaram investimentos e reavaliaram ativos num total de 50 a 55 mil milhões de dólares (46 a 51 mil milhões de euros). Não se trata de meros ajustes contabilísticos: são erros estratégicos com impacto real.

A Ford admitiu que a sua divisão dedicada aos elétricos, Model e, perde dezenas de milhares de dólares em cada veículo vendido. Cancelou planos para grandes SUV elétricos e voltou a apostar nos híbridos.

A Stellantis, dona de marcas como Jeep, Ram e Chrysler, levou um dos maiores embates: desvalorizou mais de 26 mil milhões de dólares (24 mil milhões de euros) em projetos e ativos ligados aos elétricos. Várias fábricas de baterias ficaram em suspenso e lançamentos de modelos foram adiados anos. A corrida ao ouro elétrico revelou-se caríssima.

Europa: o choque é ainda maior

Os construtores europeus enfrentam um duplo desafio. A procura fraca repete-se, mas há ainda a ameaça existencial dos elétricos chineses, muito mais baratos.

A Volkswagen chegou a ponderar fechar fábricas na Alemanha, algo inédito. A procura pela gama ID ficou muito aquém do esperado e os custos fixos mantiveram-se elevados. No início de 2025, Volkswagen, Mercedes-Benz e BMW reportaram quedas de lucros na ordem dos 46 por cento, sinal de que a transição é mais lenta e cara do que o planeado.

Seguiu-se o recuo estratégico. A Mercedes-Benz, que prometera ser totalmente elétrica até 2030 onde o mercado o permitisse, já confirmou que continuará a investir em motores de combustão e híbridos bem para lá da próxima década. A Volvo Cars também abandonou a meta de vender apenas elétricos até 2030.

As políticas públicas também pesaram. Quando a Alemanha acabou com os subsídios à compra de elétricos no final de 2023, as vendas caíram a pique, em alguns meses até 37 por cento. Os números mostram que o mercado dependia mais dos incentivos do que de uma procura genuína.

Por que estagnou a vaga elétrica?

Os analistas apontam três razões principais.

Primeiro, o preço. Os elétricos continuam demasiado caros para a maioria dos compradores. Os entusiastas já mudaram. O mercado de massas recusa pagar mais 10 a 15 mil euros só pelo selo ecológico.

Segundo, o valor residual. Os usados elétricos desvalorizam mais depressa do que os a gasolina. Empresas de renting e frotas fogem do risco de uma depreciação acelerada.

Terceiro, a infraestrutura. As redes de carregamento crescem, mas o carregamento rápido continua irregular. Para quem não tem carregador em casa, sobretudo em apartamentos, a ansiedade da autonomia é um obstáculo real.

O futuro: pragmatismo em vez de dogmas

A mobilidade elétrica não morreu. Longe disso. O que desaparece é a narrativa do tudo ou nada.

Nos próximos cinco anos, os vencedores serão os que oferecerem soluções flexíveis, sobretudo híbridos plug-in. Permitem condução elétrica na cidade e eliminam o medo de ficar parado em viagens longas.

Entretanto, os construtores ocidentais terão de encontrar forma de competir com gigantes chineses como a BYD, capazes de fabricar elétricos a custos muito inferiores. Sem cortes estruturais nos custos de produção, os prejuízos de hoje podem ser apenas o início de um ajuste industrial profundo.

Para uma indústria que acreditou que a eletrificação era salvação garantida, a lição é dura: a tecnologia muda depressa, mas a economia tem o seu próprio ritmo.